Salar de Uyuni e o caminho desde o Chile

O caminho mais recomendado de San Pedro até Uyuni, pela beleza das paisagens, é o que segue da Carretera 27 a norte pelo Passo Fronteiriço Hito Cajón. É o trajeto que fazem as agências de turismo que integram os dois destinos, no qual se leva três dias para chegar ao salar.

Nós, entretanto, dessa vez escolhemos o caminho mais fácil. Até então já tínhamos diversas vezes feito o contrário, preferindo caminhos mais longos, não asfaltados, em busca das melhores paisagens. Porém, a perspectiva de noites entre -10 e -20 °C, dos cuidados para evitar problemas com o carro em decorrência do congelamento da água e combustível, nos fez mudar de ideia.

Assim, de San Pedro de Atacama, seguimos a oeste até Calama, de onde tomamos a Carretera 21, totalmente asfaltada, até o Passo Ollagüe. Não podemos comparar os dois caminhos, mas terminamos o dia felizes com a decisão. Essa estrada é lindíssima, e passa dentro da Reserva Nacional Alto El Loa. Passamos por dois salares – Ascotán e Carcote – lagos com flamingos, grupos de vicunhas, além da vista do próprio vulcão Ollagüe.

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Região entre Calama e o Paso Ollague – Reserva Nacional Alto El Loa.

O povoado de Ollagüe tem um ar de cidade fantasma e, passando por ele, chega-se à fronteira chilena. A única dificuldade foi encontrar alguém para fazer nossos trâmites. Tudo parecia deserto, mas uma música vinha de dentro do edifício. Depois de chamarmos algumas vezes, as pessoas apareceram.

Já no lado da Bolívia, o pessoal estava a postos e tudo correu tranquilamente. Nem sinal de qualquer tentativa de extorsão de que tanto havíamos ouvido falar. Ainda vamos escrever sobre isso, mas nossa impressão é de que as histórias ruins se propagam muito mais que as boas. Até agora, não tivemos absolutamente nenhum problema com policiais desonestos nos países por onde passamos, seja em fronteiras ou nas estradas.

Finalizados os trâmites, eu mesma tive de descer do carro para abrir a “porteira” e entrar na Bolívia. Nesse momento, tivemos certeza de que uma nova etapa da viagem começava.

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Abrindo a “porteira” para a Bolívia!

Passado esse ponto, começou a dificuldade. A estrada mais curta até San Juan, onde passaríamos a noite para chegar cedo ao salar, era péssima, cheia de ondulações que tornavam a direção meio instável. Além disso, em nenhum momento estivemos seguros de que estávamos na estrada correta. Tínhamos a impressão de que havia outras paralelas e de que as pessoas vão criando suas próprias estradas e desvios no caminho. O GPS nos mostrava como fora da estrada, mas não chegamos a encontrar nenhum outro acesso. O fato é que seguimos e chegamos a San Juan, cerca de 40 quilômetros e duas ou três horas meio tensas depois.

Dormimos em uma hospedagem simples, com paredes de sal, de onde combinamos de, às 4 horas da manhã, seguir um guia que já levava um grupo vindo de San Pedro. Quer dizer, eu dormi, porque o Dani só deu uns cochilos e levantava a cada duas horas para ligar o carro e manter o motor quente durante toda a noite.

Havíamos lido alguns relatos que diziam que a travessia do salar era difícil e recomendavam fazer com guia. Nós seguimos um, mas nossa percepção foi outra. Ao menos no período seco, é moleza encontrar os caminhos, até nosso GPS mostrava os mais marcados como estradas estabelecidas. Alguns amigos se arriscaram sozinhos e não tiveram nenhum problema. Na dúvida, é só seguir para leste.

Passamos parte do dia no salar, mas preferimos não acampar lá. Seguimos até a cidade de Uyuni, onde passaríamos os piores dias da viagem, até agora.

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Amanhecer visto da Isla Incahuasi, um pequeno oásis em meio ao Salar de Uyuni.
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Salar de Uyuni.