Salta, Purmamarca e mais uma travessia da cordilheira

As estradas do noroeste da Argentina por si só já justificam qualquer viagem. Desde a região de Mendoza, não foram poucas as vezes em que escolhemos o caminho mais longo, ou que levamos várias horas para percorrer poucos quilômetros, parando montes de vezes no caminho, simplesmente pelo prazer de absorver a paisagem, de vivenciar aquela imensidão em que raramente víamos passar outro carro.

As cidadezinhas não são menos interessantes, mas, depois de dias por essas estradas, chegar a uma cidade grande é sempre um susto. Foi assim que chegamos a Salta e, para aumentar o impacto, o único camping da cidade era horrível – sujo, barulhento, e com um clima bem esquisito. Respiramos fundo e ficamos.

O principal motivo era conhecer o Museo de Arqueología de Alta Montaña de Salta – MAAM (www.maam.gob.ar),
onde estão as múmias de crianças incas encontradas no cume do vulcão Llullaillaco, a mais de 6.700 metros de altitude.

A exposição principal conta sobre os rituais incas que envolviam sacrifícios de animais e de crianças e várias das simbologias envolvidas. As múmias são expostas alternadamente e o projeto museológico é bastante delicado, respeitando o tema. Ao final do percurso, o visitante pode escolher ver a múmia ou não. Mesmo para os que optam por não ver, a coleção de objetos em miniatura encontrados nos sepultamentos vale a visita.

Museu de Antropologia de Alta Montanha - MAAM
Museu de Antropologia de Alta Montanha – MAAM

Ainda em Salta, passamos pela oficina mecânica do Juan para resolver um pequeno problema que houve com o carro. Fazia alguns dias que ele tinha começado a fazer um ruído alto e agudo, de atrito, e cheirar a queimado. Como estávamos no meio do nada e o problema era intermitente, seguimos em frente assim mesmo até Cafayate. Lá o carro ficou parado alguns dias, mas, na hora de sair, o ruído ficou muito intenso e decidimos levar a sério. O Dani abriu o capô e foi procurando a fonte do problema na tentativa e erro (ou seja, encostando a mão nos rolamentos para ver em qual queimava). Descoberto o culpado, ligou para o Mario Pizzi, que tinha feito a revisão do carro em Mendoza. O diagnóstico e solução não podiam ser melhores. Era apenas um rolamento da correia do ar condicionado e ele nos orientou a simplesmente cortá-la e seguir viagem sem urgência até encontrarmos um mecânico. O Dani deu uma titubeada e ainda falou com o Carlinhos, o mecânico de São Paulo, que disse que poderíamos retirar a correia sem cortar. A essa altura, eu já empurrava o canivete para o Dani, perguntando se o preço de uma correia nova valia o trabalho. Resumindo, seguimos assim até Salta, onde o Juan arrumou o que precisava.

Calma... eu sei o que tô fazendo
Calma… eu sei o que tô fazendo

De lá, fomos até Purmamarca, onde fica o Cerro de los Siete Colores. A ideia era fazer uma última parada ainda em uma altitude razoável (por volta dos 2.300 m) e ter o dia seguinte para subir e descer a cordilheira com calma, cruzando para o Chile pelo Passo de Jama (aos 4.400 m). Durante a noite, uma amiga nos avisou que a fronteira estava fechada em decorrência de uma nevasca. No dia seguinte, conversamos com um policial, que nos disse que podíamos seguir com cautela.

Caminho entre Salta e Purmamarca
Caminho entre Salta e Purmamarca

A subida pela Costa de Lipan é muito bonita. Fizemos devagar, aproveitando a paisagem e também evitando forçar demais o carro na altitude. Ainda antes da fronteira passa-se pelas Salinas Grandes, o primeiro dos desertos de sal que encontraríamos no caminho.

Salinas Grandes
Salinas Grandes

Chegando ao passo, soubemos que ele tinha sido aberto mais tarde e seria fechado mais cedo naquele dia. Passados alguns quilômetros e chegando perto dos 4.800 m de altitude, a paisagem se transformou completamente. Vindos do deserto, estávamos de repente em meio ao gelo. Apesar da apreensão e do frio, a surpresa foi bem divertida.
Contrastando com a subida sinuosa da costa argentina, o último trecho de descida do lado chileno, já chegando a San Pedro de Atacama, é todo em linha reta, no qual, em aproximadamente 40 km, se descem cerca de 2.000 m de desnível. O acostamento é todo ocupado por pistas de parada de emergência para caminhões e avisos para não estacionar.

Travessia da Cordilheira
Travessia da Cordilheira

Depois desta travessia, chegamos finalmente a um destino muito esperado da viagem: San Pedro de Atacama…