A Araucanía e a chuva

Passamos alguns dias em Valdívia. Andamos pela cidade, pela avenida costanera, fomos ao Museo Histórico y Antropológico, percorremos praias quase desertas, fizemos amigos e provamos algumas das cervejas locais.

 
De lá, percorremos a rota dos sete lagos e chegamos a Pucón. Ficamos apenas um dia. O tempo estava chuvoso e frio e a previsão era de que continuaria assim por vários dias. Queríamos ainda conhecer o restaurante da chef mapuche Anita Epulef, em Curarrehue, mas era domingo e não esperamos. Tocamos um trecho longo de estrada até finalmente reencontrar o sol perto do Valle Colchagua.

 
Ainda em Valdívia, conhecemos um chileno no café do museu que, depois de ver nossos vídeos da Carretera Austral, filmados apenas em dias de sol, reclamou: “Mas vocês também têm que mostrar a beleza dos dias de chuva, assim é o Chile”.

Dias depois, já no deserto, comecei a ler asmemórias de Pablo Neruda, atrasada, quase por sair do Chile, e, logo na primeira página, só pude abrir um grande sorriso, como quem tivesse finalmente entendido alguma poesia além da superfície. Cutuquei o Dani e li em voz alta, satisfeita:

 “Começarei por dizer, sobre os dias e anos de minha infância, que meu único personagem inesquecível foi a chuva. A grande chuva austral que cai como uma catarata do Pólo, desde o céu do Cabo de Hornos até a fronteira. Nesta fronteia, o Far West de minha pátria, nasci para a vida, para a terra, para a poesia e para a chuva.

 Por muito que tenha andado, acho que se perdeu essa arte de chover que se exercia como um poder terrível e sutil em minha Araucanía natal. Chovia meses inteiros, anos inteiro. A chuva caía em fios como compridas agulhas de vidro que se partiam nos tetos, ou chegavam em ondas transparentes contra as janelas, e cada casa era uma nave que dificilmente chegava ao porto naquele oceano de inverno.

 Esta chuva fria do sul da América não tem as rajadas impulsivas da chuva quente que cai como um látego e passa deixando o céu azul. Pelo contrário, a chuva austral tem paciência e continua sem fim, caindo do céu cinzento. (…)” (Confesso que vivi: Memórias – Pablo Neruda)