Chaitén e a erupção do vulcão Calbuco

Em nosso décimo dia ao longo da Carretera Austral, percorremos o trecho que liga Puyuhuapi a Chaitén. Foi um dia longo na estrada, o céu e as cores estavam lindos e, consequentemente paramos montes de vezes para registrar as paisagens e ainda fizemos um longo e preguiçoso almoço à beira do rio Palena.

Almoço no meio do caminho.
Almoço no meio do caminho.

Antes de chegar à cidade ainda desviamos um pouco para a entrada sul do Parque Pumalín, um importante parque privado de 2.889 km2 de floresta, onde está localizado o vulcão Chaitén. Estávamos considerando dormir uma noite no parque e, talvez, fazer a trilha até a cratera do vulcão, mas desistimos em função dos acontecimentos que seguiriam. Pegamos informações ali, mas seguimos primeiro para Chaitén, onde já havíamos combinado de reencontrar o Michel e a Doreen.

Ainda na Carretera Austral.
Ainda na Carretera Austral.

Chegamos à cidade já no fim da tarde, paramos, como sempre, no escritório de informações turísticas e dali nos indicaram uma praia 10 quilômetros adiante como a melhor opção para acampar. A área é pública, muito bem conservada e gratuita. Saímos correndo, empolgados, para pegar nosso primeiro pôr do sol no Pacífico.

 E o lugar era mesmo o pequeno paraíso que haviam descrito. Enquanto lobos marinhos brincavam de um lado, grupos de golfinhos seguiam a luz do sol que se afastava no horizonte e saímos os quatro acompanhando-os, pela praia.

Pôr do sol, na chegada em Chaitén.
Pôr do sol, na chegada em Chaitén.

Na volta até o carro, o Dani vinha com uma cara de interrogação e perguntou “Vocês estão escutando explosões?”. Prestei atenção e, sim, ouvia uma sequência de vibrações que pareciam vir de dentro da terra. Sabíamos que já estávamos em uma região de vulcões, que o Chaitén entrou em erupção em 2008 causando muita destruição e que segue em atividade nos dias de hoje, mas nosso conhecimento parava por aí.

Olhamos para o alto e, por trás das montanhas, aparecia a ponta de um enorme cogumelo de fumaça. Nesse momento estávamos em um misto de admiração e preocupação, e fomos bater à porta do único morador local para perguntar se aquilo era normal.

Fumaça da erupção do vulcão Calbuco, vista de Chaitén, a cerca de 200 km de distância. (foto do Michel)
Fumaça da erupção do vulcão Calbuco, vista de Chaitén, a cerca de 200 km de distância. (foto do Michel)

Ele nos recebeu rindo e contou sobre a erupção do vulcão Calbuco, que estava acontecendo naquele instante, perto de Puerto Montt, a cerca de 200 quilômetrosde distância de nós. Porém, quando olhou para o céu, seu semblante mudou e explicou, com um sorriso nervoso, que aquela fumaça toda não era normal, que o vulcão Chaitén não estava naquela direção, mas o Michinmahuida, sim.

Depois de alguns telefonemas, ele e o pai se certificaram de que os dois vulcões próximos continuavam como antes e que o que víamos era mesmo parte da coluna de fumaça do Calbuco, que atingiu 20 quilômetros de altura.

A esse ponto já estávamos em uma discussão sobre o que fazer, dormir na cidade, para sabermos caso houvesse uma repercussão local ou ficar lá mesmo. Pensei no meu pai, que sabia mais ou menos onde estávamos e, sendo geólogo, poderia ter acesso àinformação antes que repercutisse na TV no Brasil. Enviei várias mensagens dizendo que estávamos longe e seguros. Tanto ele como minha mãe responderam coisas do tipo “incrível”, “que legal”, “queria estar aí”, apenas com a recomendação de, ao menos, observar as rotas de evacuação antes de acampar em praias no Chile. Hehe. E eu preocupada com a possibilidade de eles estarem preocupados.

Várias cidades são sinalizadas com rotas de evacuação, para casos de vulcão ou de tsunami.
Várias cidades são sinalizadas com rotas de evacuação, para casos de vulcão ou de tsunami.

Como os moradores também pareciam despreocupados, ficamos, apenas de olho nas notícias. Para nossa sorte, o vento soprava a noroeste, sentido oposto ao que estávamos, então não sentimos nem os efeitos das cinzas. Dois dias depois, decidimos ir logo para norte, aproveitando enquanto o vento continuava assim.