Um pouco de perrengue na Carretera Austral

Depois de encontrar todos os campings de Cochrane fechados em decorrência do final da temporada de verão, já prevíamos que teríamos dificuldades com hospedagem ao longo da Carretera Austral. Além de não querer estourar as contas pagando muitas diárias de hotéis, já faz um tempo que nos sentimos em casa quando estamos na barraca e no carro. Lá estão nossas coisas arrumadinhas, nossa privacidade, e tudo vira um caos quando precisamos fazer e desfazer bagagem.

Quando chegamos em Puerto Río Tranquilo para conhecer as famosas Capillas de Mármol, no Lago General Carrera, a situação se repetiu. Dessa vez tivemos sorte, pois encontramoso Cristobal, dono de um camping com um projeto todo sustentável, mas que estava fechado para obras. Ele estava de saída, mas não quis nos deixar na mão e disse que podíamos voltar se não encontrássemos mais nada aberto. Dito e feito, voltamos e pedimos socorro. E assim começamos a ver que a hospitalidade dos chilenos estava mais para regra que para exceção.

Passando Coyhaique, a situação se agravou, pois, apesar de haver campings disponíveis, os que encontramos eram um mais precário que outro. Em Puerto Cisnes estávamos dispostos a voltar e dormir na estrada, mas ainda inconformados por não encontrar uma solução melhor, quando o Dani se saiu com uma ideia que nos salvaria pelas próximas noites.

Ele já tinha ficado de olho em uma hospedagem com um estacionamento grande e voltamos para perguntar, na cara de pau, mas com o jeitinho conversador dele, se não poderíamos acampar lá discretamente. A resposta foi um pronto sim, que nos pareceu estranhamente fácil. Só depois de instalados é que fomos entender o que passou. O homem com quem ele havia conversado, achando que era o dono, era apenas um hóspede e a funcionária que o acompanhava concordou vendo a chance de ganhar um “por fora”, já que não haveria ninguém para fiscalizar.

Depois de cobrar nossa diária, ela foi embora e nos pediu para não usarmos a cozinha e não incomodar os dois hóspedes que voltariam em seguida. Porém, quando chegaram, o Patricio e o Carlos nos chamaram para o lado de dentro, mais quente e confortável, dividiram a janta com a gente e até nos mostraram onde ficava a lavanderia. Assim, o dia cansativo de chuva na estrada terminou de maneira super agradável e em boa companhia.

Depois disso, usamos esse recurso mais algumas vezes, mas nem sempre o resultado foi bom. Vários lugares recusam, claro; alguns aceitam sem problemas, cobrando um valor abaixo da hospedagem normal, mas também há casos em que pode ser constrangedor (passamos por um assim em Puyuhuapi, onde, apesar de o dono ter nos deixado ficar, quando a esposa chegou vimos que ficou um clima ruim).

Dá pra tentar em qualquer lugar? Claro que não. Em cidades mais urbanizadas ou com um tipo de turismo de padrão mais alto nem perdemos tempo perguntando, vamos logo para o que há disponível.

Em Puyuhuapi saímos cedinho do estacionamento do hotel para fugir do constrangimento e tomamos um bom café da manhã na praça.

Companhia do café da manhã.
Porto em Puyuhuapi.
Crianças em Puyuhuapi.