Entrando na Carretera Austral

Ao longo do caminho, acabamos conhecendo vários outros viajantes. As pessoas se identificam e param para cumprimentar, trocar dicas, ou até ajudar. É engraçado que acabamos conhecendo poucos turistas convencionais, mas muita gente na mesma situação, fazendo uma viagem longa por terra, seja de carro, motorhome, motocicleta, bicicleta ou até “a dedo” como dizem por aqui. Muita gente que largou o emprego para cair na estrada e outros tantos aposentados que adotaram o overlanding como estilo de vida. Às vezes, os trajetos e ritmos coincidem por um período e vamos nos reencontrando em cada parada.Isso aconteceu com o Michel e a Doreen, um casal da França que está percorrendo a Pan American Highway e parte da África em períodos alternados. Em Puerto Natales, eles haviam estacionado na frente da hospedagem em que estávamos. Depois, nos cumprimentamos em Torres del Paine, eles saindo e nós chegando e fomos finalmente nos conhecer no camping em El Calafate. Em El Chaltén nos encontramos nas estradas e nas trilhas e decidimos seguir juntos dali até Cochrane, no Chile.

Revisando o mapa com Doreen e Michel.
Revisando o mapa com Doreen e Michel.

Levamos um dia e meio para chegar à fronteira em Passo Roballos, pelas rotas provinciais. Nesse trajeto, fizemos nossos primeiros wild camp e, apesar da falta que faz umchuveiro quente, estamos pegando gosto pela brincadeira. Aprendemos com eles aviajar em um ritmo mais tranquilo, parando para almoçar ou curtir a paisagem quando vale a pena.

Essa fronteira aparentemente é menos utilizada que a de Chile Chico, ainda mais fora da temporada. Fomos os únicos a passar naquele dia, mas isso, na verdade, significou mais tempo com os trâmites, tanto na saída da Argentina como na entrada do Chile, onde o oficial teve tempo de sobra para conferir toda nossa bagagem.

De Bajo Caracoles, na Argentina, até a fronteira em Passo Roballos.
De Bajo Caracoles, na Argentina, até a fronteira em Passo Roballos
Mudança na paisagem, já próximo ã fronteira com o Chile.
Mudança na paisagem, já próximo ã fronteira com o Chile

Na manhã seguinte chegamos a Cochrane, uma cidadezinha típica da Patagônia chilena e fomos bater à porta do Gastón, cujo camping estava fechado, assim como a maioria nessa região quando termina o verão. Meia hora de conversa depois, copa do mundo, chute de Pinilla na trave, o Dani conseguiu convencê-lo a reabrir “por um par de dias” (que virariam quatro ou cinco). Gastón foi figura à parte nesta parada, um típico gaucho, super hospitaleiro, compartilhou seu mate, nos levou para pescar no sítio e ainda preparou uma bandeja de sopaipillas* para levarmos na última manhã. Só depois de comer a primeira leva descobri que banha de porco também se chama manteca, e é nisso que elas são fritas. O resultado foi que o Dani teve sopaipillas para mais dois dias, as dele e as minhas. Mais uma vez nos impressionamos com a mudança brusca na paisagem ao sair da Patagônia argentina e nos aproximarmos da cordilheira. O lado chileno é muito mais úmido e a vegetação, consequentemente, abundante. Por essa fronteira, entra-se no Chile pelo Vale Chacabuco, por dentro do Parque Patagônia. A estrada é estreita e sinuosa, de rípio, beirando o rio e, por isso, os poucos quilômetros que faltavam para chegar à cidade mais próxima, Cochrane, se estenderam até à noite e tivemos de acampar improvisadamente no parque, que estava fechado e em obras.

Gastón em frente ao seu camping.
Gastón em frente ao seu camping
Em Cochrane, esperando passar o horário da siesta para entrar no mercado, assim como nós.
Em Cochrane, esperando passar o horário da siesta para entrar no mercado, assim como nós
Lago onde pescamos no sítio do Gastón.
Lago onde pescamos no sítio do Gastón

Nos dias em que acampamos lá a temperatura chegou a 2 graus abaixo de zero pela manhã. Imaginando quantos dias mais desse frio enfrentaríamos para ir a Villa O’Higgins (cidade mais ao sul da Carretera Austral) e voltar, decidimos seguir direto para o norte e aí nos separamos dos novos amigos, que seguiram para sul.

Lago onde pescamos no sítio do Gastón.
Lago onde pescamos no sítio do Gastón
Paisagem sobre o Rio Backer, entre Cochrane e Puerto Tranquilo, em um dos poucos dias de sol que pegamos por aí.
Paisagem sobre o Rio Backer, entre Cochrane e Puerto Tranquilo, em um dos poucos dias de sol que pegamos por aqui

sopaipilla é uma massa de pão cortada em quadrados e frita em banha de porco, típica da alimentação das pessoas do campo, na patagônia e também em outras regiões. Na Argentina chamavam de tortas fritas.